A cidade de Traipu- 189 quilômetros de Maceió- ostenta o segundo pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil e já foi alvo de quatro operações da Polícia Federal- todas para prender o prefeito, a vice, a primeira dama e secretários- acusados de corrupção e pistolagem. R$ 16 milhões foram desviados nos últimos quatro anos e 28 pessoas foram assassinadas desde 2009 sem que nunca a Polícia Civil da cidade indicasse o mandante. Na segunda cidade mais pobre do Brasil, o medo e o silêncio tomam conta das ruas.
Às margens do rio São Francisco, Traipu encanta pela beleza, mas ficou mais conhecida pela corrupção e a pistolagem. Até jornalistas são proibidos de entrar na cidade- a não ser com escolta policial.
- Pode entrar na cidade, mas se for um carro da Polícia com vocês. Ninguém garante mais a vida de ninguém. Nem que vá com escolta.
Problema é que o prefeito Marcos Santos (PTB) e a primeira-dama, Juliana Kummer, escaparam do cerco da Operação Tabanga- da Polícia Federal- no último dia 20- e todos na cidade dizem que eles estão na região. Os agentes federais deveriam capturar os dois na fazenda "Sonho Meu", comprada, segundo as investigações, com verba pública. A ação seria na madrugada. Mas, Santos e a mulher souberam horas antes da operação e escaparam pelo rio São Francisco- provavelmente em uma das várias lanchas do prefeito- em direção a uma das centenas de ilhas do São Francisco.
- Olha, meu filho, dizem que ele está numa casa bem fechada em uma ilha, mas não falo mais nada, disse uma moradora, que fala rapidamente por telefone.
- Por que o medo?, pergunta a reportagem.
- O telefone é um documento.
Não é exagero. A PF encontrou em uma das casas do prefeito um impressionante sistema de videomonitoramento, com câmeras espalhadas por toda a cidade, além de rádios transmissores. Ano passado, os federais, quando foram a cidade em mais uma operação, viram uma cena impressionante: uma corrente na porta da cidade e dois policiais "tomando conta" da entrada. Eles avisavam, por rádio, ao prefeito, quem entrava em Traipu. E só podiam ficar no município com "autorização" de Marcos Santos.
A corrente foi arrancada e está na Justiça Federal- é uma das centenas de provas contra o prefeito.
A cidade só tem uma retransmissora de televisão e foi "proibida" de receber a segunda. A cada dez pessoas em Traipu, sete não sabem ler- tornando quase impossível a venda de jornais.
Até o ano passado, até telefone celular estava proibido. A custo, uma operadora foi autorizada a funcionar em Traipu. Para saber das notícias, um carro de som passeava pelo município, sempre acompanhado por um bordão: "o eterno prefeito Marcos Santos disse isso..." ou "o eterno prefeito Marcos Santos disse aquilo...".
Os três provedores de internet foram liberados e com eles as pessoas criaram a comunidade "100% corrupção em Traipu", com uma foto de Marcos Santos, de chapeu branco e as mãos algemadas.
- O prefeito Marcos Santos faz falta em nossa cidade. Ele é quem movimentava o comércio da região, disse um morador.
- Como assim?
- O povo ficava na porta da casa dele. Ganhava cinco, dez reais. E faziam a "feira" com o dinheiro, disse, também por telefone, sem prolongar a conversa.
No Sindicato dos Trabalhadores da Educação (Sinteal), a presidente, Simone dos Santos, não quer falar. Diretores de escolas e professores fogem do assunto.
Como até a verba da merenda escolar era desviada, os alunos só viram carne de boi e de frango, pela primeira vez, este ano. Comiam bolacha com suco na hora do recreio. O dinheiro da merenda, segundo as investigações da PF, abastecia as dispensas do prefeito. Pagava a feira da própria casa com os recursos do Fundeb.
Nomeada há 20 dias para a Promotoria de Traipu, Karla Padilha começou o trabalho fazendo uma visita surpresa à maternidade Nossa Senhora do Ó- que teve o nome trocado para homenagear Maria Eulina dos Santos- a mãe do prefeito.
- Constatamos que faltam médicos e os medicamentos estão acondicionados de forma irregular, disse a promotora.
Considerada uma das melhores profissionais do Ministério Público- colocou dezenas de prefeitos alagoanos na cadeia por corrupção- Karla Padilha teve de suspender as investigações na maternidade e pedir reforço ao Grupo Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gecoc), do MP:
- O volume de trabalho é imenso. O prefeito fez o seguinte: ele ficou oito anos à frente de Traipu. Depois, colocou o sobrinho, porque não podia se reeleger. Virou secretário especial. Ele era o prefeito de fato, mas não de direito. Após o sobrinho, Marcos Santos se candidatou e ganhou a eleição, da cadeia, disse a promotora.
- E ano que vem é eleição. Se não houver nenhuma condenação em segunda instância contra o prefeito- por causa da lei do Ficha Limpa- Marcos Santos pode se candidatar de novo, disse Padilha.
Em 2008, Marcos Santos estava preso- por outra operação da PF- e, mesmo assim, conseguiu concorrer na eleição de Traipu sem andar um único centímetros pelas ruas, pedindo votos. Ele ganhou a eleição. E conseguiu um habeas corpus, tempo para assumir a Prefeitura e ter imunidade com o cargo.
Em 2009, Marcos Santos- que é funcionário afastado do Tribunal de Contas- recebeu uma promoção no cargo, com salário de R$ 5 mil. Ele apoiou o filho do então presidente do TC, Isnaldo Bulhões, para a reeleição na Assembleia. Isnaldo Bulhões Júnior (PDT) conseguiu os votos de Traipu- com ajuda do prefeito.
Investigações
Na Câmara de Vereadores de Traipu, a presidente, Conceição Tavares conseguiu concluir uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) movida contra a Prefeitura. Constatou gastos exorbitantes em papel higiênico- R$ 100 mil por mês- combustíveis- R$ 750 mil- e R$ 30 mil- em copos descartáveis.
- Só ando com segurança. Há uma lista de gente para morrer. E sou o primeiro nome, disse.
Mesmo foragido, Marcos Santos "participou" da sessão da Câmara, na última terça-feira. Vereadores da situação ligaram os telefones e o prefeito "ponteava" os discursos, sem dizer nada do outro lado da linha.
A Comissão de Direitos Humanos da OAB/AL entregou, na quinta-feira, relatório ao Ministério Público sobre a quantidade de pessoas assassinadas em Traipu: 28, todos sem solução entre 2009 e 2011. Um deles é o do secretário municipal de Turismo, José Valter Matos Palmeira, o Valtão. Ele foi morto no dia 15 de maio por um ex-segurança do prefeito, dentro de casa, após estacionar o carro. Câmeras de seguranças do próprio Marcos Santos flagraram o crime, até hoje sem desfecho.
Atendendo a um pedido do MP, o delegado Geral da Polícia Civil, Marcílio Barenco, designou novo delegado e policiais para a cidade.
A CEI da Câmara descobriu, também, que havia esquema de desvio de verbas públicas do Ministério do Turismo, na pasta do secretário assassinado.
- Estamos levantando todas as possibilidades. O Ministério Público investiga a participação de seguranças do prefeito na morte do secretário, mas ainda não podemos dizer que foi ele quem mandou matar, disse o promotor do Grupo Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gecoc), Luiz Vasconcelos.
No último dia 20, quando a Operação Tabanga- da PF- esteve em Traipu, prendeu dois seguranças de Marcos Santos. E com eles um arsenal de 18 armas- dois revólveres 38 e 16 espingardas- provavelmente usadas para matar desafetos do prefeito, da região.
A Operação descarticulou uma fraude de R$ 8,2 milhões em verbas do Fundeb e do Transporte Escolar. Somadas às outras operações- Carranca, Caetés, Mascotch- todas em verbas públicas, incluindo Educação- o prejuízo está em 16 milhões. Só em Traipu.
Na Tabanga, a PF constatou que os R$8,2 milhões foram desviados para compra de 26 automóveis - entre carros de luxo, caçambas, tratores, microônibus e uma lancha -, além de mais sete imóveis, entre chácaras, fazenda e uma casa, e 658 cabeças de gado Nelore.
Só a Fazenda Sonho Meu vale R$4,5 milhões. Todos os bens foram tornados indisponíveis e devem ir a leilão em 60 dias, é o que espera o MPF.
Foram expedidos oito mandados de prisão preventiva, mas só quatro prisões realizadas- o prefeito, a primeira dama e secretários fugiram.
- A PF está investigando se houve vazamento da informação. Não estamos descartando nenhuma possibilidade. Instauramos um procedimento para apurar isso - disse o superintendente da PF, Amaro Vieira.
Além das prisões, houve 16 mandados de busca e apreensão, 28 sequestros de bens e quatro ordens de suspensão do exercício da função pública. Foram apreendidos ainda 19 armas, pássaros silvestres e cartões de banco. As investigações começaram em 2009, por denúncias do Sindicato dos Trabalhadores da Educação.
A Justiça Federal determinou o afastamento do prefeito. No lugar dele, assumiu a vice, Juliana Machado, nora do prefeito - presa em maio, com a primeira-dama de Traipu, acusada de desviar verba da merenda escolar para compra de uísque, uma boneca e pagamento de despesas pessoais.
- Nosso prefeito vai voltar. Ele é quem vai querer.
- Quem vai querer?, pergunta a reportagem.
- O presidente.
A referência é ao senador Fernando Collor (PTB), idolatrado em Traipu. Foi lá que o senador veio de helicóptero- "como um anjo que desce do céu"- começar a campanha ao Governo, em maio do ano passado. Levando Marcos Santos, a tira colo.
Odilon Rios
reporteralagoas
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